Uma das frases mais famosas de Paulo Freire, educador brasileiro conhecido mundialmente pelo seu método de alfabetização de adultos, diz que “quando educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar o opressor”.

Em uma sociedade que ainda discrimina pessoas negras, que são a maior parte da população do Brasil, a educação precisa ser mais do que libertadora: ser antirracista, pois é no ambiente escolar que os preconceitos raciais começam a ser dissolvidos.

Mulher afrodescendente colando um cartaz antirracista na parede de uma escola que trabalha com a educação antirracista
Educação antirracista combate qualquer atitude racista no ambiente escolar – Foto: iStock/Divulgação/Educa SC

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Nesse post, saiba o que é a educação antirracista e veja quatro formas de aplicá-la na sua escola.

O que é Educação Antirracista?

A Lei nº 10.639, sancionada no Brasil em 9 de janeiro de 2003, estabeleceu a obrigatoriedade do ensino de “História e Cultura Afro-brasileira” dentro das disciplinas que já fazem parte do currículo do Ensino Fundamental e Médio, e também estabeleceu o Dia da Consciência Negra no calendário escolar, no entanto, a educação antirracista vai além disso.

Uma educação baseada na luta antirracista combate, ativamente, toda e qualquer expressão racista no ambiente escolar. Além disso, as práticas realizadas neste tipo de abordagem antirracista valorizam a identidade de diferentes povos e visam proteger, desde cedo, as crianças negras vítimas do racismo brasileiro.

Trabalhar com essa metodologia nas escolas é essencial para promover a igualdade entre os estudantes e criar um ambiente de aprendizado livre de qualquer tipo de preconceito.

Saiba como aplicar a educação antirracista na prática.

1. Entender as origens do racismo

Entender as origens do racismo é o primeiro passo para uma educação antirracista. No livro Pequeno Manual Antirracista, escrito pela filósofa, ativista e influenciadora negra, Djamila de Ribeiro, a autora investiga as origens do racismo e afirma que a sociedade brasileira foi estruturada com base em um sistema opressor que discrimina e privilegia algumas raças em detrimento de outras.

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Compreender o racismo estrutural é fundamental para atacar o problema na raiz e combatê-lo. Em 11capítulos curtos, a autora dá dicas para o leitor aprofundar sua percepção sobre atitudes discriminatórias e assumir a responsabilidade de mudar essa realidade.

Nesse sentido, o livro é uma boa forma de trabalhar a educação antirracista na escola, ideal para ler com os alunos dos Anos Finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio.

2. Investir na capacitação de professores

Por mais consciência que tenhamos, muitas vezes acabamos reproduzindo atitudes racistas sem perceber. Isso ocorre porque vivemos em uma sociedade que foi estruturada em um sistema de opressão racial, porém reconhecer os erros e comprometer-se a não repeti-los é o que faz toda a diferença.

Aprender algo novo faz parte do dia a dia do professor, por isso que investir na capacitação de professores, além de ser benéfico para toda a comunidade escolar, é imprescindível para uma educação antirracista eficaz.

3. Abordar referências positivas

Não há como falar sobre racismo sem ouvir o que as próprias pessoas negras têm a dizer sobre ele, por isso a representatividade é tão importante. Para aplicar a educação antirracista na sua escola de forma eficaz é preciso trazer referências que possuem lugar de fala dentro do assunto.

Na literatura, há vários autoras e autores negros que compartilham suas vivências em suas obras. Um exemplo é a autora Carolina Maria de Jesus, que teve seus diários publicados sob o título “Quarto de Despejo: diário de uma favelada” em 1960. No volume, ela relata sua rotina como moradora da favela do Canindé, na zona Norte de São Paulo, e sua luta diária contra o preconceito racial e a fome.

Além de Quarto de Despejo, Carolina Maria de Jesus era uma escritora completa e deixou uma vasta obra que está sob os cuidados de sua filha, Vera Eunice de Jesus. Para além da literatura, trazer outras personalidades como Antonieta de Barros, André Rebouças, Benedita da Silva, entre outros, é uma excelente opção para trabalhar referências positivas em sala de aula.

4. Estimular mudanças no vocabulário

“Denegrir”, “criado-mudo”, “inveja branca”, entre outros, são palavras que muitas vezes utilizadas no dia a dia sem se dar conta de que esses termos têm origem no sistema de discriminação racial.

Reconhecer essas palavras como propagação do racismo e substituí-las é um passo muito importante para o combate ao preconceito racial. Na educação antirracista, é papel dos professores e da escola identificar essas palavras e estimular a mudança de vocabulário entre os estudantes e os funcionários das unidades de ensino.

Além de fazer a diferença através de pequenos gestos, a mudança também ajuda a aumentar o vocabulário, o que é importante principalmente para os alunos da Educação Infantil, pois é através de um vocabulário rico em palavras que os pequenos aprendem a se expressar e estruturar seus textos.

Mês da Diversidade Cultural

Durante todo este mês de novembro, o Educa SC apresenta uma série de conteúdos no canal e no portal para falar sobre a Diversidade Cultural e importância de discussão sobre o assunto nas escolas catarinenses.