“Eu aprendi a ler, professor”, no primeiro ano do Ensino Fundamental, Beatriz, que hoje tem mais de 20 anos, disse à Adroaldo Antonio Fidelis a sua realização. Assim começou a história de luta por meio da educação do sociólogo indígena, que desde 2003 usa o conhecimento para fortalecer a identidade originária de seus alunos.

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Na escola indígena, o professor busca o equilíbrio entre os saberes indígenas e não indígenas – Foto: Arquivo da Escola/ Divulgação/Educa SC

Adroaldo, ou Duko Vãnfy na Língua Kaingang, cresceu aprendendo os princípios de seu povo, onde o respeito com o outro, com a natureza e com todos os seres que a habitam sempre foi uma constante. Por conta disso, como professor, busca levar aos seus estudantes as mesmas inspirações que os kofás (idosos) lhe trouxeram antigamente.

Integração de conhecimentos

Os saberes aos quais foi educado não possuem literatura e escritos, pois na cultura Kaingang eles são apresentados por meio da oralidade. Na escola Fen’nó, localizada na terra indígena Toldo Chimbangue, em Chapecó, os conhecimentos indígenas e não indígenas caminham juntos. A escola possui o nome em homenagem a uma grande guerreira protagonista de lutas pela retomada do território tradicional.

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“ O contexto ‘escola’ no cotidiano do povo indígena não possui muita representatividade, pois aprendemos com a vivência. Nossa ‘escola’ não está somente em um ambiente fixo. Porém, ela vem para somar, pois o local que o não indígena trouxe nos ensinou a conviver com eles e permite a nossa chegada em ambientes que não poderíamos estar”, conta.

A estrutura da unidade não indígena também proporcionou a aprendizagem na técnica de debates e na defesa dos direitos originários com mais força e argumentação. Ainda assim, o formato de escola que não abarca completamente a cultura de sua comunidade, desfavorece o desenvolvimento de um aprendizado próprio, causando perda cultural e identitária.

“É um espaço de muita luta, pois somos presos ao um formato de sistema onde muitas vezes precisamos deixar nossos saberes para se adaptar a organização do não indígena, causando um impacto ainda maior em nossos alunos. Por mais engessado que seja o sistema educacional, a escola precisa ser mantida como espaço de luta e resistência, formando multiplicadores dos conhecimentos indígenas, militando em prol da causa comprometidos ao contexto social contemporâneo”, acrescenta.

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O nome da Escola Fen’nó inspira o professor e seus alunos a serem suas melhores versões – Foto: Arquivo da escola/ Divulgação/Educa SC

Ensinar para aprender

Para uma pessoa que nunca se imaginou sendo professor, Adroaldo vive o seu ofício profundamente. Na sala de aula sonha com um futuro melhor para os alunos e segura em suas mãos até conseguirem caminhar sozinhos com os próprios pés, usando o conhecimento como forte aliado na luta pelos seus direitos.

Mesmo às vezes cansado com a rotina que demanda muitas horas extracurriculares, quando entra na escola Fen’nó, inspirado pela força da mulher que lhe deu o nome, todos os sentimentos negativos ficam para trás. E embarca em uma aventura fantástica de ensinar e aprender.

Ser professor vai além de motivar: é regar uma planta que precisa de muito amor, carinho e atenção para crescer, florescer e dar bons frutos. Ser professor é se colocar no lugar do outro”, diz.

Todo o esforço do educador em propagar a força dos indígenas dentro de suas aulas de Filosofia e fazer com que os jovens entendam a necessidade de sempre continuar lutando por seus direitos, já que os projetos de lei muitas vezes andam em retrocesso, trouxe efeitos impactantes na vida de Luana Katãnh Antunes, 16.

“ Duko Vãnfy é uma pessoa sábia, um exemplo de guerreiro para os mais novos. Ele me mostra que eu posso superar todas as dificuldades que a sociedade me impõe e me ensinou a ser uma guerreira pelas lutas do meu povo. Cada ‘batalha’ que tivemos, ele sempre esteve presente”, relata a estudante.

Resistência na educação

Assim como Luana, vários outros estudantes da escola indígena foram atingidos pelos propósitos de vida de Adroaldo: a autodeclaração como povo originário, o protagonismo em sua própria história e a reafirmação da identidade Kaingang para enriquecer a sua ancestralidade.

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Dentro da escola, o professor desenvolveu diversos projetos culturais para enriquecer a vivência da comunidade escolar, como oficinas de artesanato, culinária indígena, canto e dança Kaingang, assim como uma Semana Cultural Indígena que ocupa um espaço especial em seu coração.

Hoje, Mestre em Educação, ele acredita que essa é a maior arma do mundo contra a ignorância. No contexto indígena, mostra-se como forte aliada na implementação dos direitos individuais e coletivos e na individualidade de luta e resistência dos Kaingang, sendo um espaço onde mantém latente e vivo os saberes culturais.

Mês do Professor

Para valorizar as boas práticas e professores que vão além da sua missão de ensinar, durante todo mês de outubro, o Educa SC divulga a série “Eu, professor, faço a diferença” com histórias de educadores que motivam, inspiram, superam e fazem a diferença na comunidade escolar.