Empoderar e incentivar meninas que ainda estão na escola a participar de projetos voltados à tecnologia na universidade está funcionando em Joinville, no Norte do estado, como uma ferramenta contra a desigualdade no campo das engenharias. Isso porque as estatísticas não escondem que as mulheres são minoria: dos 45 mil engenheiros em Santa Catarina, apenas 6,5 mil profissionais são do sexo feminino.

Meninas na Ciência
O Projeto “Meninas na Ciência” mostra que mulheres tem espaço dentro da área de engenharia, robótica e computação – Foto: Arquivo escolar/Divulgação/Educa SC

O Programa “Meninas na Ciência”, parceria da UFSC com a Secretaria de Estado da Educação, entrega a possibilidade de atravessar horizontes através do ensino de engenharia aeroespacial, energias renováveis, desenvolvimento de jogos, robótica, programação e empreendedorismo para 15 meninas de cinco escolas públicas do município.

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Para o professor universitário e coordenador do projeto, Carlos Sacchelli, mostrar alternativas é um dos aspectos mais importantes para combater a desigualdade. “É essencial mostrar para as meninas do Ensino Fundamental e Médio que elas são capazes de trabalhar com tecnologia, engenharia e computação. Que elas podem e devem ter essa perspectiva de futuro”, pontua.

Transformação na vida das alunas

Na Escola de Educação Básica (EEB) Professora Jandira D’Ávila, Keity Balsius, 16, Carolina Cerniak, 17, e Vanessa Cardoso, 17, compõem o time de protagonistas que estão transformando a aprendizagem dentro da universidade. Conhecendo a trajetória de mulheres importantes para a ciência, elas enxergaram em si mesmas o potencial de ser o que quiserem.

“Vendo como foi difícil cada etapa da conquista de mulheres ao longo da história e sua perseverança em não desistir, isso me encorajou a fazer o mesmo. Eu não vou desistir do que tenho interesse apenas por ser difícil ou por eu ser minoria. Estou superando meus próprios limites e pretendo continuar assim no meu futuro”, compartilha a estudante Carolina.

Já Vanessa se sente especial por ter a oportunidade de aprender sobre a força de suas ancestrais ao conquistar seus objetivos. “É muito interessante saber a história dessas mulheres que fizeram tanto sem serem reconhecidas. Elas conquistaram seus objetivos sem medo, apesar dos julgamentos”, comenta.

Impacto para além dos estudos

Do outro lado da sala, a professora Daiane Mafra enxerga em suas alunas durante a participação no projeto, para além do empoderamento, um novo sentido de vida. Para a docente, com o conhecimento que adquiriram, elas são capazes de enfrentar qualquer desafio no dia a dia.

“Durante a realização das atividades, além do conhecimento científico, elas exercitam a criatividade, raciocínio lógico e autonomia. Esses são atributos fundamentais para que, perante uma situação problema, elas tomem uma decisão de forma crítica e responsável. Esses projetos aproximam os estudantes da universidade, incentivando-os a dar continuidade em seus estudos “, conta a professora.

Projetos como o “Meninas na Ciência” promovem a troca de conhecimentos entre a comunidade escolar e a universidade, favorecendo que estudantes percebam a importância de seguir um curso de graduação.

“ Desde 2011, em conjunto com outros professores, temos projetos de educação científica dentro de escolas. Várias pessoas que orientamos dentro dos colégios passaram a ser nossos alunos na universidade e trabalham ainda para esses mesmos projetos que os conquistaram. Então, para essas meninas, o principal impacto é enxergar a possibilidade de continuar estudando “, complementa o professor Carlos.

Meninas na Ciência
O Projeto mudou a perspectiva de futuro das três alunas – Foto: Arquivo escolar / Divulgação/ Educa SC

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Elas no poder

Em 2015, foi plantada uma semente que gerou frutos para o sucesso do projeto: um curso de ciência e tecnologia voltado à professores da rede pública. Andreia Viliczinski, egressa do curso, hoje faz parte do time de professoras que coordenam dentro da EEB Marli Maria de Souza o “Meninas na Ciência”.

“Projetos são uma das metodologias mais eficazes, porque além de apurar o senso crítico, desenvoltura e pesquisa, é possível ver mudanças no comportamento do aluno. Elas se tornam protagonistas e, quando eu enxergo esses resultados, acabo me realizando como professora”, admite Andreia.

A iniciativa dentro da UFSC

Além das escolas participantes, o professor orienta três graduandas que fazem parte do projeto que, junto com as 15 alunas escolhidas, amadureceram ao decorrer do desenvolvimento das atividades.

“Minhas alunas sofreram grandes mudanças, principalmente na questão do empoderamento feminino. Fizeram uma longa pesquisa em relação à participação das mulheres nos mais diversos campos da engenharia, computação e tecnologia. Ficaram muito empolgadas. É muito importante mostrar para as meninas que elas podem estar no lugar que quiserem “, conta Carlos.

Para o futuro, o coordenador tem o sonho de expandir o projeto para mais escolas, para que o impacto seja exponencial. Hoje, eles contam com o apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq), porém, a meta é conseguir suporte de empresas privadas para potencializar a dimensão do “Meninas na Ciência”.

Projetos como esse despertam a esperança de que o futuro pode ser mais igual, livre e sem rótulos para meninas e mulheres. Keity Balsius percebeu que ela é capaz de tudo e pretende ensinar a suas colegas a história de tantas outras que vieram antes dela.

“Percebi que adquiri conhecimento sobre coisas que eu nem imaginava existir. Conectei com a trajetória das mulheres que exerceram papéis essenciais no mundo. Hoje, eu me sinto mais encorajada a correr atrás dos meus sonhos “, conclui a estudante.